ROSAS


ROSAS

a cidade escarnece de mim
esta noite venho retalha-la
sei onde ela desova
a natureza tomou
tudo o que havia dado
está agora vazia de pulmões

faz os poetas brigar
e o povo escondido chora
quer ouvi-los
ninguém sabe quantos são

aqueles que comigo hão-de vir

muitos os pássaros que gemem de dor
mas lá fora a lua esconde-se

e as rosas acabadas lambem os cheiros

nos redis juntam-se os carneiros

roubo as falésias e os montes
tenho de escalá-los descalça
a cidade escuta-me
arma trincheiras
já se esqueceu de mim

no mar tenho ainda traineiras
e um violão chamando por mim
arrebanha minhas saias na dança
dança magana dançada de joelhos
por amor eu danço sim

são ruas os meus rosários
e no rio ergo altares de cascatas
também nestas águas ergo fragatas
e venho com as covas de braçado
trago os poetas mortos

e os vivos cantando seus versos
evocando seus amores
remoendo suas perguntas
também retalham a cidade
ponta a ponta destroem as suas muralhas

que será das cidades se os poetas deixarem de o ser
que será das cidades se vivos e mortos os poetas respirarem fundo
que será das cidades se os poetas deixarem o mundo

margarida cimbolini


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